• Comitê Brasileiro de Acrobacia e Competições Aéreas Brasil

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CONVERSANDO COM OS ACROBATAS - 5

Finalizando o ciclo de entrevistas com os competidores de Rio Verde, apresentamos uma conversa com Francis Barros, que voou no Campeonato Mundial da FAI no ano passado (Texas-EUA) e que também levou o troféu de campeão brasileiro em 2013.

 

-Onde, como e quando aprendeu a pilotar aviões? 

Aprendi a pilotar no aeroclube do RGS, em Porto Alegre, com 14 anos. Praticava aeromodelismo em um projeto muito nobre daquele aeroclube na época, chamado DIA - Departamento de Iniciação Aeronáutica. Me permitiu ter uma adolescência saudável e cercada de aviões. Fui muito beneficiado pela convivência com o meu instrutor, Cmte. Sergio Fraga Machado, um dos melhores instrutores que conheci. Trocava lavagens do avião dele por voos de instrução. 

 

-Quando começou a gostar de acrobacia? 

A partir do primeiro momento que vi um avião fazendo acrobacias. Foi um momento mágico, que me causou surpresa, euforia, êxtase e felicidade. Foi quando vi um Cap10B daquela entidade realizar um meio tunô após a decolagem. Não esqueço a cena de ver a sua barriga azul com estrelas virando a baixa altura....instantaneamente percebi que aquilo era o supra-sumo da arte de voar e da busca pela perfeição! Felizmente naquela época, as pessoas não eram tão receosas quanto à acrobacia e a aviação, e todo o fim de semana tínhamos uma demonstração realizada pelo Cmte. Machado, e algumas vezes, por outros pilotos também (como o Cmte. Casarin).

  

-Como foram os primeiros vôos acrobáticos? 

Foram em aeronaves Cap10B e em Citabria, durante estes voos que eu fazia no fim de semana durante a minha adolescência, tentando voar em cada oportunidade possível....

 

-Em acrobacia, já encontrou alguma dificuldade que precisou ser superada? 

Todo aprendizado é uma dificuldade a ser superada. Por isso o próximo voo é sempre um desafio, mas tecnicamente falando, acho que a maior dificuldade de domínio, foi a da execução dos "Outsides Snaps", não só pelo aspecto técnico, mas principalmente pelo aspecto físico. Durante esta manobra, a gravidade atrapalha ergonomicamente para que o piloto possa executar corretamente os movimentos nos comandos de voo. Por isso é de extrema importância que o piloto esteja corretamente sentado no cockpit.

 

-Quais foram os benefícios que a prática da acrobacia aérea trouxe para seu nível de pilotagem? 

Os benefícios foram muitos. Entendimento da Teoria do Voo, compreensão da mecânica dos controles de voo, visualização tridimensional do movimento, desenvolvimento da compreensão dos níveis de energia de uma aeronave, disciplina operacional, autoconhecimento emocional e evolução da capacidade de mentalização e desenvolvimento da capacidade de planejamento e antecipação. Não concebo continuar voando profissionalmente sem fazer acrobacias em paralelo como hobby....sou viciado nesta atividade.

 

-Na sua opinião, qual a melhor forma de treinar para um campeonato? 

A acrobacia aérea, apesar de ser um esporte onde o piloto se apresenta individualmente, é um esporte de grupo, de time. Por isso o melhor treinamento ao meu ver, é aquele onde você tem um time, onde os pilotos podem se avaliar e se desenvolver, juntamente com um treinador. É isso que estamos tentando desenvolver no Brasil. Além disso, é importante uma organização dos treinamentos, ou seja, é importante que o piloto mantenha uma constância de voos, intensificando-os no período próximo ao campeonato. Uma atividade física paralela também é muito importante para quem almeja as categorias mais altas. Treinamento funcional e pilates são atividades que auxiliam bastante. É claro que cada um quer ser o melhor e vencer, mas esta determinação deve existir apenas no momento do voo. No resto, um time e um grupo são o melhor caminho para uma melhor evolução a nível técnico absoluto.

 

-Tem alguma opinião geral sobre a competição de Rio Verde? 

A minha opinião é que apesar das muitas falhas operacionais e de organização que tivemos, foi um dos melhores campeonatos em termos de ambiente e de vontade de se fazer a coisa certa. Todos os envolvidos criaram uma atmosfera encantadora. Em termos de julgamento, nunca vi um juri tão comprometido em estudar e focado em realizar um julgamento justo, o que é maravilhoso para o esporte. 

 

-Pretende seguir competindo? Quais os planos para o futuro? 

A ideia agora é descansar um pouco enquanto a aeronave sofre a sua manutenção preventiva. Na temporada de 2014, com certeza participarei do Campeonato Nacional Brasileiro e tentarei arrecadar recursos para participar no Campeonato Europeu, para tentar focar no Mundial de 2015, que será na França. Mas isto tudo depende de projetos de arrecadação de recursos financeiros.

 

-Tem algum conselho para quem deseje aprender acrobacia aérea? 

Tenho: que não desista dos seus sonhos em primeiro lugar. Este esporte não é fácil, não só pelo aspecto físico e técnico, mas principalmente pelo aspecto financeiro. O segundo conselho é: faça um bom curso com um bom instrutor e com um bom avião. O instrutor é a peça fundamental para um correto aprendizado e para a construção de uma base sólida.

O bom instrutor não é aquele que quer demonstrar as suas manobras de forma exibicionista, mas sim aquele que se preocupa com o seu aluno e que desenvolve lentamente a sua capacidade. Este esporte é feito de "Steps" (Passos) e eles devem ser seguidos à risca. Se um gênio ou um ás quer se desenvolver, o que acontecerá é que ele passará pelos "Steps" mais rapidamente do que outros, mas mesmo assim ele não pode omitir essas etapas. Um grande disseminador desta idéia é o Cmte. Fernando Paes de Barros, um dos melhores pilotos que conheci. Um exemplo para todos nós a ser seguido. A experiência está aí para comprovar o que acontece quando tentamos fazer as coisas de uma maneira diferente. Apesar de ser um esporte de aptidão psico-motora, o que define um atleta ou um bom piloto é a sua "cabeça" e o seu foco. Aprender sozinho pelo erro e tentativa pode até funcionar para alguns, mas o caminho a ser percorrido é muito maior, mais caro, e mais cheio de espinhos do que o caminho da humildade em se buscar um bom instrutor. Mesmo que ele custe caro...

 

-O que esperar da acrobacia aérea no futuro?

A volta do Red Bull Air Race é uma mola motora muito forte para o esporte. Tanto é verdade que mesmo apesar do Mundial ser na América (a grande maioria dos pilotos e dos aviões a nível competitivo mundial se encontram na Europa), o número de participantes neste mundial foi muito maior do que no anterior, que foi na Itália em 2011. Vale dizer que a Air Race e a Acrobacia de Competição são atividades muito diferentes, apesar da acrobacia ser uma base fundamental para a Air Race. Mas são matérias diferentes. A acrobacia aérea infelizmente nunca será atrativa para o público, pois diferentemente da F1, o expectador na maioria das vezes nunca teve a experiência de pilotar, diferentemente do carro. E para piorar, os critérios de julgamento são muito específicos, ou seja, não são de conhecimento do público. Por isso a Air Race é muito mais atrativo, pois a guerra é contra o relógio.

Vejo futuro e sustentabilidade na Acrobacia Brasileira se conseguirmos filmar nossos campeonatos e transformarmos em programas televisivos, como estes reality's shows que vemos nos canais de TV a cabo, pois o visual e a competição de uma maneira descritiva aí sim se tornam muito atrativos. Em termos tecnológicos, os aviões cada vez apresentam maior resistência e leveza, o que proporciona uma relação peso X potência cada vez menor. Esse é o caminho. Com isso será possível se voar mais lento, e desta forma o box ficará "maior". A possibilidade de execução de novas figuras aumenta o espetáculo, que assim fica cada vez melhor. Neste aspecto, temos muito a aprender com os aeromodelistas. Estão "anos-luz" na nossa frente...

 

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